9 de dezembro de 2014

O Baile, (1983)




TRILHA ORIGINAL
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La Paloma (Vladimir Cosma)

A multiplicidade de ritmos que invade "O Baile" garante à obra uma postura universal, muito além da história da França. Temos de tudo um pouco: clássicas baladas do começo do século passado, jazz, rumba, tango, rock’n roll, disco dance e até um samba de Ary Barroso (Aquarela do Brasil). Um pot-pourri e tanto! As músicas deixam de ser apenas um detalhe técnico para se tornarem personagens.



O Baile (Le Bal), (1983)


O Baile, de Ettore Scola
Avistamos, inicialmente, globos de espelhos. Em seguida, é apresentado o único cenário do filme: uma espaçosa pista de dança, rodeada por mesas e cadeiras e um balcão de bebidas, uma escadaria ao fundo. Eis que os atores vão surgindo. Primeiro, as mulheres, uma a uma; depois, os homens vêm, formam uma fila e descem os degraus simultaneamente. Todos, ao entrar, dirigem-se ao grande espelho do outro lado do salão para se observar, conferir se o cabelo e a roupa estão nos conformes. Nenhuma palavra é proferida, há somente olhares e gestos.


Não vi todos os filmes do italiano Ettore Scola, mas O Baile é, muito provavelmente, o projeto mais criativo de sua carreira. A ausência total de diálogos confere ao roteiro uma perigosa incursão no mundo da pantomima em plena década de 80, além de uma cuidadosa coreografia musical que realça o enfoque emocional de cada situação. A dramaturgia da fita depende exclusivamente da mise-en-scène, uma tarefa hiperarriscada!




A premissa é traçar uma retrospectiva da sociedade francesa, desde a década de 30 até o final dos anos 70, por meio dos figurinos e da trilha sonora. O elenco é sempre o mesmo, entretanto as músicas e a cenografia encarregam-se de nos ambientar em diferentes períodos históricos. Mais que isso, O Baile escreve uma esplêndida crônica dos relacionamentos humanos ao longo do século 20, tão saturado por mudanças comportamentais. O melindre no primeiro contato dos rapazes com as moças, no período do pré-guerra, dá lugar à exploração banal da sensualidade nos rituais modernos de paquera. Decotes ousados e pernas de fora deixam pra trás os ancestrais vestidos recatados e toda a sorte de acessórios.




Apesar das transformações mais visíveis, Scola deixa patente que o maior objetivo das pessoas é imutável: encontrar um parceiro. E qual melhor ambiente para falar disso do que uma pista de dança? O salão, as músicas e o gestual dos atores se mantêm como elemento figurativo da passagem do tempo, tal como a caricatura dos mais diversos tipos urbanos.


A multiplicidade de ritmos que invade O Baile garante à obra uma postura universal, muito além da história da França. Temos de tudo um pouco: clássicas baladas do começo do século passado, jazz, rumba, tango, rock’n roll, disco dance e até um samba de Ary Barroso (Aquarela do Brasil). Um pot-pourri e tanto! As músicas deixam de ser apenas um detalhe técnico para se tornarem personagens.



A consistência desse trabalho é comprovada pelo notável estudo dos atores unicamente pelas exterioridades, o que converte qualquer fala num item supérfluo. Existe, sim, o pano de fundo histórico — a queda da aristocracia, a invasão nazista, o milagre econômico, as rebeliões estudantis, etc. —, contudo O Baile se fia em especial na ampliação da linguagem cinematográfica, transcendendo as regras básicas da sétima arte, para fazer um panorama psicológico dos personagens pelo uso do corpo e seus movimentos. No balé de Scola, nenhuma palavra é pronunciada, porém muita coisa é dita.





TRILHA ORIGINAL

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Le Bal (Trumpet - Pierre Dutour)



SEQUÊNCIA
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Es plaisirs démodés (Charles Aznavour)



TRAILER
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Et maintenant (Vladimir Cosma)





CARTAZES DO FILME 





                                                                                                   
O Baile (Le Bal), (1983)


SINOPSE
Através de um salão de dança, a narrativa dos acontecimentos políticos, como as Frentes Populares, Invasão Nazista, 2ª Guerra, Maio de 68, e culturais, com a entrada do Jazz, Rock e da Discomusic, que foram marcantes na França dos anos 30 aos anos 80. A ausencia de diálogos faz com que o diretor utilize da simbologia, juntamente com os personagens de comportamentos peculiares, para criar um ambiente que represente cada época.





ELENCO E FICHA TÉCNICA
(Actores do grupo de Théatre du Campagnol)

Elenco: Danielle Rochard, Étienne Guichard, Régis Bouquet, 
Francesco De Rosa, Arnault LeCarpentier, 
Liliane Delval, Martine Chauvin, Marc Berman
Genevieve Rey-Penchenat, Rossana Di Lorenzo
Gênero: Musical
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Ettore Scola, Furio Furio Scarpelli, 
Jean-Claude Penchenat, Ruggero Maccari
Produção: Giorgio Silvagni
Fotografia: Ricardo Aronovich
Trilha Sonora: Vladimir Cosma
País de origem: França, Argélia e Itália






PRÊMIOS E INDICAÇÕES


Oscar 1984 (EUA)
Indicado na categoria de melhor filme estrangeiro (representando a Argélia).


Festival de Berlim 1984 (Alemanha)
Recebeu o prêmio dos leitores do jornal Berliner Morgenpost
Ettore Scola recebeu o Urso de Prata.

Indicado ao Urso de Ouro.


Prêmio César 1984 (França) 
Venceu nas categorias de melhor diretor, de melhor filme francês (com À nos amours) e melhor música. 

Indicado na categoria de melhor fotografia (Ricardo Aronovich). 



David di Donatello 1984 (Itália) 
Venceu nas categorias de melhor filme (com E la nave va), melhor diretor, melhor edição e melhor música.






CURIOSIDADE

Le bal é uma adaptação que o Théatre du Campagnol tinha montado em Paris, e que com cerca de vinte e cinco actores, conseguiu compor cento e quarenta personagens. À ideia do espectáculo original, Scola foi acrescentando referências cinéfilas, em quadros que passam pelo realismo poético francês, pelo filme musical estadunidense, pelo neorealismo italiano e até pela presença de um actor com extraordinária semelhança com Jean Gabin.




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