22 de outubro de 2014

Os Reis do Iê Iê Iê, (1964)





A Hard Day's Night (Os Reis do iê iê iê) - 1964

"Esta noite foi um dia duro". Numa tradução aproximada, era este o título que anunciava o primeiro filme realizado com os Beatles. A expressão, em inglês A Hard Day’s Night, fora criada pelo baterista Ringo Starr, e não permitia correspondências lingüísticas. Os versionistas decidiram, então, esquecê-la. Na Itália, inspiraram-se em Alexandre Dumas e sacaram Tutti per uno (todos por um) para nominar a obra. Na França, chegaram a Quatre garçons dans le vent (algo como "quatro rapazes da onda"), que entusiasmou Paul McCartney. No Brasil, onde vanguarda é intuição, os Beatles se tornaram "Os Reis do Iê Iê Iê".



A dificuldade em verter a titulação de um mero filme para adolescentes expõe o que significou, para o mundo de então, esta obra que agora chega restaurada aos cinemas. A Hard Day’s Night era uma ousada comédia do absurdo para fãs incondicionais. Richard Lester, americano, usou as armas de um bom diretor. Foi inteligente e sofisticado. Estudou seu objeto de trabalho. Fez um trato com a irreverência e excluiu o que fosse sentimental. Em resumo, respeitou um público composto majoritariamente por meninas histéricas de 13 anos. Mas como lhe permitiram tamanha ousadia?

Um exército de interesses favoreceu Richard, a quem a banda insistentemente chamava Dick. Eram todos jovens - diretor, atores, roterista - e relativamente baratos, o que favorecia o risco. Endeusados na Inglaterra, naquele ano de 1964 os Beatles ainda não haviam fulminado o coração americano. Quem precisa de ingleses, se Elvis está vivo? A United Artists percebeu que a gravadora da banda, a EMI, não registrara como seu o direito de distribuir trilhas sonoras. Num golpe de mestre, resolveu fazer primeiro um filme para então apresentar um disco inédito contendo as músicas de cena, e então ganhar o mundo.



A Hard Day’s Night foi produzido em preto e branco porque saía mais barato, embora Walter Shenson, o produtor nascido na Califórnia, afirme, num making of realizado há sete anos, a opção artística pela ausência de colorido. O filme custou 175 mil libras, cerca de 350 mil dólares, e só na primeira semana de distribuição faturou US$ 8 milhões, o que o tornou um dos mais lucrativos produtos cinematográficos de todos os tempos, conforme narra Barry Miles em Many Years From Now, a biografia autorizada de Paul.

As razões para o sucesso de Lester, gênio da Filadélfia que aos 2 anos de idade, contam, soletrava 250 palavras, empolgam qualquer principiante. Ele tinha alguma experiência cômica, é verdade, advinda de seriados de tevê, e dirigira o impiedoso Peter Sellers no filme experimental The Running, Jumping and Standing Still Film. Mas nunca se arriscara em música, com exceção de uma sofrível passagem adolescente por aulas de clarinete e piano. O que o fazia um candidato ideal para os Beatles, e Shenson soube perceber isto muito bem, era sua irreverência, rebeldia e rapidez - em suma, seus 32 anos espertos.


A Hard Day's Night, 1964

Lester quis saber como os Beatles eram, para então devolvê-los ao público. Sua concepção era a de um estranho realismo social. A Hard Day’s Night é um filme-verdade, embora banhado em nonsense. Jovem, o diretor conhecia o ingrediente que movia os novos rebeldes. O combustível de John, Paul, Ringo e George era a ironia. Ironia desmedida. Ironia dos homens secos de Liverpool. Ironia contra a sociedade, mas também contra si mesmos, contra a vontade de se dar bem. Em seguidas seqüências do filme, o que se vê é um John de 24 anos exibindo os dentes (os de Ringo estavam em melhor estado).

A Hard Day’s Night é feito de frases curtas, combinadas com a edição disparada, porque os Beatles não eram atores, nem tinham tempo, ou disposição, para decorar falas. Há também onomatopéias à moda de Três Patetas, embora o tom dominante do texto seja o de Irmãos Marx. O diretor de tevê de suéter empedernido se aproxima, diz que sua parede está lotada de prêmios e que eles, músicos, terão de obedecê-lo, e então John lhe sorri, dizendo "Eu poderia ouvi-lo por horas", numa das melhores tiradas do filme.

Alun Owen, um galês, foi chamado por Lester para escrever o roteiro. Era originário do império das ilhas (um deles deveria ser, pelo menos) e um craque da revolução televisiva britânica, quando a principal moeda corrente, naquele momento, parecia ser a mudança. Owen fez George Harrison usar a expressão "grotty", significando grotesco, que se tornou gíria a partir do filme, embora Owen insista em dizer que aprendeu a expressão em Liverpool, onde morava. Como sugeriu Harrison certa vez, Owen e Lester ditaram aos Beatles a melhor maneira de eles se apresentarem como eram.


E como eram os meninos de Liverpool? No filme, não muito diferentes de bebês hiperativos confinados no cercadinho. Num minuto, a mamãe não está e eles pulam fora, alegremente, sujando tudo. Mesmo no clima claustrofóbico de entrevistas à imprensa sempre medíocre, mesmo espremidos entre as fãs no trem e nas ruas, sim, mesmo assim eles riam de todos.

Exemplos disso são as seqüências musicais, sempre joviais e estimulantes, atadas à experiência do filme (não é verdade que ele tenha inspirado os velozes clipes atuais, pobre filme). Numa delas, inicial, os quatro executam ironicamente a canção "I Should Have Known Better" num bagageiro de trem, na companhia de animais e cercados por grades. Em outra, final, no teatro Scala de Londres, para uma platéia de 350 figurantes entusiasmados (o compositor Phil Collins, aos 13 anos, era um deles), tocam "She Loves You", que não constará da trilha. Enquanto as pequenas fãs choram e se descabelam ao vê-los e ouvi-los, a letra da canção nos lembra que "com um amor desses você sabe que seria feliz" ("with a love like that you know you should be glad").



O filme não erra ao mostrar a infelicidade do inebriante estado prisional. O personagem do velho "muito limpo", avô de Paul, interpretado por Wilfrid Brambel, ator de sucesso da tevê inglesa então com 52 anos, está ali para ensinar os meninos a usar a juventude que lhes resta e a jogar os livros fora. É um conselho e tanto, que favorece a entrada de Ringo Starr na trama. Ele é o melhor ator do filme, a grande surpresa, em que pese a participação demolidora de John (é especial vê-lo na banheira espumante afundando naviozinhos da Grande Inglaterra). Paul, reconhece o próprio Lester, orgulhava-se em demasia da arte de interpretar, e George, um sujeito sensato, fazia o que lhe pediam, mas Ringo foi decisivo.

Numa coletiva de imprensa simulada, jornalistas são utilizados (o filme foi rodado em sete semanas e Lester improvisou a participação de figurantes, em alguns casos fãs reais correndo atrás dos quatro músicos no caminho da estação de Paddington). Ringo, levado por uma repórter a definir se se sentia um "mod" ou um "rocker", designações para as tribos roqueiras do período, responde: "Um mocker". Na expressão, está um jogo de palavras característico do filme. Ringo é o pensador involuntário que sintetiza a inspiração irônico-surreal da banda. Não é um rocker, não é um mod. É só um músico fazendo história, e também o alvo predileto das chacotas.



O baterista tem talento para o mínimo, embora muitos acreditem que mínimo é apenas seu talento. Por ele, passam as aspirações da juventude da época. Ele está pouco ligando para o status quo, tampouco o status quo está ligando para ele. Sua revolução tem um quê de distraída. A melhor parte do filme é vê-lo ler "Anatomia de um Crime" num bandejão e, estimulado pelo parente de Paul, sair para viver a vida depois de perceber que os vovôs perdem muito tempo sendo velhos. E o que faz Ringo para viver a vida? Fotografa o rio, mas a máquina cai na água. Vai ao pub, e lá acerta um papagaio. Compra um casacão, mas esbarra na moça que passa, e ela xinga. O talento de Ringo simula uma inconsciência divertida. Dizem que ele passou o filme todo com dor de barriga, mas não dizem o que ele andou comendo. 

CRÉDITOS DO TEXTO: Rosane Pavam/Gazeta Mercantil





CARTAZES DO FILME
CRÉDITOS


























A Hard Day's Night (Os Reis do Iê Iê Iê) - 1964


SINOPSE

O ano é 1964 e a Beatlemania está no seu auge. Os quatro rapazes de Liverpool estão a ponto de mudar o mundo da música - se conseguirem deixar o quarto do hotel onde estão hospedados. Enfrentando produtores nervosos, fãs histéricos e parentes problemáticos, Paul, John, George e Ringo buscam de todas as maneiras se divertir e ao mesmo tempo cumprir seus compromissos firmados.


TRAILER 
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ELENCO E FICHA TÉCNICA  
Título: Os Reis do Iê Iê Iê / A Hard Day’s Night
Elenco: John Lennon, Paul McCartney,
George Harrison, Ringo Starr,
Wilfrid Brambell, Norman Rossington,
John Junkin
Diretor: Richard Lester
Roteiro: Alun Owen
Cinematografia: Gilbert Taylor
Edição: John Jympson
Produção: United Artists
País e Ano: Inglaterra, 1964
Gênero: Comédia, Musical








Um comentário:

  1. Um filme que vi diversas vezes, algumas delas de olhos fechados. Mas ouvidos grudados na tela. Inesquecíveis cavaleiros do Apocalipse careta, que vieram para compor um tempo de encompridar cabelos, ajustar calças, encurtar saias e colocar na boca dos jovens "sim, nos podemos!"

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