19 de novembro de 2014

A Primeira Noite de Um Homem, (1967)


Triste coincidência, hoje, após publicar o tópico deste post, soube  do falecimento desse grande diretor Mike Nichols, aos 83 anos, fica aqui a singela homenagem ao grande mestre - 06/11/1931 - 20/11/2014





TRILHA ORIGINAL 
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The Sound of Silence - (Simon & Garfunkel)
A trilha sonora é de Simon&Garfunkel. Suas músicas pontuam e definem todos os momentos do filme. A primeira música a ser tocada é The Sound of Silence. Outra que fez muito sucesso foi Mrs. Robinson, que se encontra na 6ª posição entre as 100 melhores músicas do cinema.


A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967)

Há muito que eu queria assistir ao filme A Primeira Noite de um Homem. Sempre lia comentários acerca das interpretações dos atores, da trilha sonora, da direção eficiente de Nichols – diretor que trouxe às telas um dos filmes mais devastadores que eu conheço: Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) –, além das sempre comentadas cenas antológicas, principalmente aquele momento no começo, quando o protagonista pergunta a uma mulher mais velha – Mrs. Robinson, a que irá iniciá-lo – se ela está, afinal, tentando seduzi-lo. Se o filme fala sobre uma iniciação, não me furto a brincadeira: é também uma iniciação para o espectador que, como eu, conhecia pouco sobre o universo cômico-romântico já ofertado por esse diretor.

Katharine Ross e Dustin Hoffman

Conhecer os títulos mais dramáticos de Mike Nichols – além da obra já citada de 1966, também Silkwood – Retrato de uma Coragem (1983) e Closer – Perto Demais (2005) – e gostar deles fez com que eu o admirasse ainda mais, sobretudo por compreender a sua eficácia em dominar também o humor elogiável e o romance adequado que são misturados com equilíbrio em sua narrativa aqui. A história de Ben Braddock, rapaz recém-formado da faculdade, registra algum drama, mas é, sobretudo, na dissolução desse drama que o enredo se apresenta – o rapaz mal chega em casa e já é recepcionado por inúmeros parentes e amigos dos seus pais que há muito ele não vê e de quem pouco se lembra, todos festejando algo que ele próprio parece não entender muito bem – ele, afinal, apenas se graduou e rever tantos rostos semi-conhecidos não é de fato algo que lhe interessa agora. Uma mulher, no entanto, lhe desperta a atenção, porém não sem pouco esforço por parte dela: ela começa a seduzi-lo, a inseri-lo num mundo que até então lhe era bastante desconhecido – o do desejo e da sexualidade.

Anne Bancroft

O título que o filme recebeu no Brasil é bastante impreciso e, mais do que isso, extremamente equivocado. A vida de Ben Braddock não nos é narrada com enfoque na sua primeira vez – o que encerraria o enredo num momento bastante específico de sua jornada. O foco do filme está justamente no seu aprendizado, no modo como o jovem se transforma de rapaz ingênuo em obstinado, naquilo que ele aprende ao longo da tutoria de Mrs. Robinson, mulher que fará de sua vida um prazer e um inferno, ao mesmo tempo. A dualidade dela é bastante visível, exercendo nele um poder bastante ferrenho, criando nele uma série de dúvidas em relação à figura da mulher cuja idade se equipara à de sua mãe. Se, logo no começo, ela se despe com intensidade – seja literalmente, seja nas conversas (ela inclusive lhe conta que era alcoólatra) –, mais tarde ela se afasta dele, mantendo-se despida fisicamente, mas impedindo que seus diálogos tanjam uma intimidade mais profunda que aquilo que o sexo permite. Uma grande amostra do processo de amadurecimento do rapaz: ela o ensina a sorver o sexo sem a insegurança e o afobamento de adolescente, mas, em contrapartida, ensina-o a frieza do sexo descompromissado. Ela é, afinal, a graduação a que o título original se refere; ela é a escola da vida pela qual Ben precisava passar antes de verdadeiramente graduar-se.

Provavelmente – além da fantástica trilha sonora, a qual retomarei em breve – o que mais gosto nesse filme é da edição rápida e da câmera adotada por Nichols que sempre insere o espectador na visão do personagem. Dois momentos são fundamentais para a compreensão dos elementos que citei: primeiro quando Ben vê Mrs. Robinson nua pela primeira vez e depois quando os seus pais o obrigam a entrar na piscina vestindo traje de mergulho a fim de exibi-los – o filho e as suas habilidades – aos amigos. A primeira cena nos apresenta a perturbação de Ben ante a visão daquela nudez, tão assustadora quanto voluptuosa: não à toa, ele observa todo o corpo, a edição nos ajudando a acompanhar o furor, o desajeitamento e velocidade com a qual o rapaz lança olhadelas para Mrs. Robinson, que não hesita em perturbá-lo cada vez mais. Não fosse aquela edição fantástica, que nos permite ver exatamente o que o personagem vê – isto é, sentir o que ele sente também, compactuar com seu conflito –, decerto todo o efeito desejado se perderia. E digo o mesmo acerca das escolhas de Nichols, como no caso da segunda cena que citei: o rapaz se vê tão aprisionado naquela bobagem a que os pais o submetem que sua visão periférica se vê totalmente retalhada, restando-o apenas olhar pra frente (provavelmente devido à vergonha que sente por estar ali) e enxerga apenas através de um pequeno círculo, o que intensifica a nossa sensação de agonia e, mais uma vez, faz com que saibamos efetivamente o que o rapaz sente naquela situação.

Dustin Hoffman e Anne Bancroft

O filme potencialmente perderia seu grande charme se não fosse essa magnífica trilha sonora, que acompanha a trajetória da trama do começo ao fim, sempre apresentando canções que parecem combinar perfeitamente com aquilo que é mostrado. Sem falar, é claro, numa música especial – especialíssima –, chamada “Mrs. Robinson”, escrita por Paul Simon e exaltando todas as características que orbitam o universo próprio que Mrs. Robinson é – when you’ve got to choose, every way you look at it, you lose. E penso que nenhuma personagem da trama poderia fazer mais jus a uma música em homenagem a si do que Mrs. Robinson e isso acontece justamente porque Anne Bancroft tem uma interpretação tão magistral que ela faz com que sua personagem coadjuvante se torne protagonista da trama – seus olhares, sua postura desafiadora e inabalável, seu tom de voz sedutor, seu humor aristocrático, sua beleza que, fugindo do fulgor da juventude, parece se reafirmar ainda mais na segurança da meia-idade. Linda, inesquecível! Tão potente é a interpretação de Bancroft que nem mesmo reparamos em Dustin Hoffman, o verdadeiro protagonista do longa-metragem, quando ele e ela dividem cenas. Um dos melhores momentos da trama, a meu ver, no que concerne à realização de Nichols, acontece na primeira noite de Ben. O embate entre os personagens é maravilhoso, mostrando a dicotomia das experiências de mundo dos dois: ele, ingênuo, afoito, agarra-lhe o seio enquanto ela se despe tranquilamente; depois, na crise de consciência que ele tem, advinda também por causa de sua insegurança – embora ele não revele a ela, aquela é, afinal, sua primeira vez –, os dois dialogam rapidamente antes de, por fim, transarem. Não vemos a cena, mas tudo o que a antecede é justamente um delicioso prólogo de extremo bom gosto estético para aquilo que nossa mente irá criar logo em seguida.

Katharine Ross

É evidente que a direção de Mike Nichols não se sustenta por si só, nem é a trilha sonora apenas que garante a total atenção do espectador. Anne Bancroft, a alma do filme, decerto seria diminuída não fosse o roteiro que lhe favorece, bem como favorece a Hoffman e a Katharine Ross – linda! –, que interpreta a filha de Mrs. Robinson, com quem Ben Braddock evidentemente acabará envolvido, o que acrescenta tom dramático à fita. O filme funciona como um todo, uma série de elementos muito bem posicionados e usados em prol do resultado final, que se mostra extremamente valoroso. Não se trata de uma obra vazia que discute as relações sexuais de um jovem, mas uma produção que, nas suas proporções, apresenta propostas ontológicas, percorrendo o reconhecimento de um rapaz que primeiro se vê sem propósito para, gradualmente – the graduate – compreender aquilo de que verdadeiramente gosta e pelo que vale lutar. E não vejo como o filme possa abster-se de uma abordagem sociológica: para mim, ele parece percorrer bastante as metáforas que se fazem úteis ao longo de toda a trama, num roteiro que claramente apresenta a juventude em oposição àquilo que os mais velhos apregoam, e não é apenas o final do filme que mostra isso com clareza – ao longo de toda a obra podemos ver a distinção entre os jovens – Ben Braddock, Elaine Robinson, Carl Smith – e seus pais, sempre indicados pela omissão do primeiro nome, dando-lhes um caráter mais formal – Mr. e Mrs. Braddock, Mr. e Mrs. Robinson e Mr. e Mrs. Smith. O filme se registra como uma excelente obra, havendo nela relevância cinematográfica para que perdure por muitos anos como um título inesquecível, tanto pelo seu conteúdo em si quanto pelo modo como ele foi concebido – The Graduate, afinal, é um dos precursores do movimento artístico que se denominaria New Hollywood e que consagraria grandes outros títulos, como Sem Destino (1969), Cada um Vive como Quer (1970), O Exorcista (1973) e Taxi Driver (1976), só para citar alguns.



TRILHA ORIGINAL 2
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Mrs. Robinson - (Simon & Garfunkel)
Mrs. Robinson, a canção de Simon & Garfunkel se tornou uma referência quando o assunto são trilhas de destaque. Quando foi lançada como single em 1968, chegou ao primeiro lugar da parada Billboard Hot 100, nos Estados Unidos, e ainda ajudou a dupla a ganhar o Grammy de Melhor Disco do Ano, em 1969. A faixa estava sendo composta por Simon para contar a história de Mrs. Roosevelt e a princípio não tinha nada a ver com a produção. Mas acabou se adaptando para se tornar o hino da Mrs. Robinson de Bancroft.

CARTAZES DO FILME 
CRÉDITO


















CURIOSIDADES
• Hoffman foi datilógrafo, zelador, garçom e vendedor de brinquedos. Alega que viveu abaixo da linha oficial da pobreza até os 31 anos. O sucesso de A Primeira Noite de Um Homem transformou sua carreira. Recebeu, inclusive, uma indicação ao Oscar. Anos depois ganhou o Oscar por sua participação em Kramer versus Kramer e Rain Man.

• Anne Bancroft recebeu a terceira indicação ao Oscar por sua atuação em A Primeira Noite de Um Homem. Ela quase recusou o papel, pois alguns amigos tentaram convencê-la de que a personagem era perigosa. Ela acabou imortalizada como Mrs. Robinson. Sua personagem foi o ponto alto do filme.

• Katharine Ross (Elaine) foi a professora de Butch Cassidy. Ela é hoje escritora de livros infantis.

• A trilha sonora é de Simon&Garfunkel. Suas músicas pontuam e definem todos os momentos do filme. A primeira música a ser tocada é The Sound of Silence. Outra que fez muito sucesso foi Mrs. Robinson, que se encontra na 6ª posição entre as 100 melhores músicas do cinema.

• Dizem que Doris Day rejeitou o papel de Mrs. Robinson alegando: – Isso ofende os meus valores morais.

• Robert Redford não foi escolhido porque não passava a imagem de um bobinho que nunca houvesse dado bem com uma garota.

• A perna que aparece nos cartazes promocionais do filme não pertence a Anne Bancroft, e sim a uma então desconhecida modelo, Linda Gray.

• Apesar de no filme parecer bem mais velha, na época das filmagens a atriz Anne Bancroft tinha 37 anos, apenas seis a mais que Dustin Hoffman.

• O carro utilizado por Dustin Hoffman, um Alfa Romeo Spider, teve com o sucesso do filme uma série especial nos Estados Unidos chamado de The Graduate (nome do filme em inglês).

• O sucesso do filme transformou a carreira de Dustin Hoffman e abriu as portas para todos os atores étnicos de Nova Iorque.

• Na época em que o filme concorreu ao Oscar, a competição configurava-se como: A Nova Hollywood com Bonnie e Clyde e A Primeira Noite de um Homem contra a Velha Hollywood com No Calor da Noite e Advinhe Quem Vem para Jantar.

• Em 2005, a Warner Bros. Pictures lançou o filme Dizem por aí…, que conta a história de A Primeira Noite de um Homem como se fosse verdadeira, através da personagem Sarah Huttinger (Jennifer Aniston) que acredita que sua família seja os Robinson de Pasadena descritos no livro de Charles Webb e no filme de Mike Nichols.



A Primeira Noite de um Homem (The Graduate) - 1967

SINOPSE
Benjamin Braddock acaba de retornar formado da faculdade. Meio perdido na vida, é seduzido pela mulher do melhor amigo de seu pai, bem mais velha. Não resistindo à tentação, Benjamin começa a viver a vida de uma maneira diferente do que seus pais desejavam, mas é a filha de Mrs. Robinson quem rouba o coração do rapaz. O filme prima pela sua trilha sonora e lança um certo Dustin Hoffman para o mundo. Oscar de Melhor Direção.



ELENCO E FICHA TÉCNICA 
Título Original: The Graduate
Elenco: Dustin Hoffman, Anne Bancroft, 
Katharine Ross, William Daniels, 
Murray Hamilton, Elizabeth Wilson, Brian Avery.
Diretor: Mike Nichols.
Produção: Mike Nichols e Lawrence Turman
Fotografia: Robert Surtees
Música: Dave Grusin e Paul Simon
Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry.
Origem e Ano: EUA - 1967



PRÊMIOS
Oscar 1968 (EUA)
    Vencedor na categoria de melhor direção (Mike Nichols)
    Indicado nas categorias de melhor ator (Dustin Hoffman), melhor atriz (Anne Bancroft), melhor atriz coadjuvante (Katharine Ross), melhor filme, melhor fotografia e melhor roteiro adaptado.


Globo de Ouro 1968 (EUA)
    Vencedor nas categorias de melhor filme para cinema - comédia/musical, melhor atriz de cinema - comédia/musical (Anne Bancroft), melhor diretor de cinema - comédia/musical (Mike Nichols), melhor atriz estreante (Katharine Ross) e melhor ator estreante (Dustin Hoffman).

Grammy 1968 (EUA)
    Vencedores: Dave Grusin e Paul Simon na categoria de melhor trilha sonora original escrita para cinema/TV/mídia. Título: The Graduate. Artistas: Simon and Garfunkel.

BAFTA 1969 (Reino Unido)
    Vencedor na categoria de melhor direção, melhor filme, melhor edição, melhor ator estreante (Dustin Hoffman), melhor roteiro.
    Indicado nas categorias de melhor atriz (Anne Bancroft) e melhor atriz estreante (Katharine Ross).

Um comentário:

  1. Este é um filme para ser visto de vez em quando. Sempre quando sentirmos saudades de nós mesmos. Quem nunca?

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